
Era uma manhã úmida e chuvosa em 13 de julho de 1998 quando 15 jovens adolescentes desembarcaram em Petrópolis para uma viagem que jamais esquecerei. O gosto de ir para a natureza já era latente em nós. Fazia 1 ano que o grupo escolar se organizava para viagens "aventurescas" em trilhas mais curtas por Paranapiacaba e Serra do Mar. Toda a quarta feira nos reuníamos depois da aula no auditório da escola para combinar a próxima viagem. Meu professor de filosofia era o tutor da molecada. Era uma turma bem legal que só queria curtir uma viagem e ter novas experiências. O grande desafio daquele ano já estava marcado para a Serra dos Órgãos subir o Pico Açu. Era a nossa primeira grande viagem com mochilões e camping selvagem. Me lembro até hoje que minha saudosa mochila Trilhas e Rumos Crampon 60L pesava 19,2Kg no embarque. Até ovo nós levamos.
Pisamos em solo Petropolitano sob uma forte garoa para arrumarmos as tralhas em um seminário de padres e de lá irmos para a estação de ônibus. A cidade parecia morta. Reflexo da desastrosa final da copa no dia anterior. Ninguém nas ruas e um bando de garotos animados pelo perrengue que nos aguardava. Embora estivesse desanimado pelo tempo ruim, não via a hora de conhecer as formosas cristas e montanhas da Serra dos Órgãos. Enquanto o Brasil "chorava" a derrota pela França, para nós a festa não tinha acabado assim como a chuva que naquele dia não parou! Passamos pela entrada do parque sem tomar conhecimento (nem se quer existia portaria) e chegamos na Toca do Presidente ou Boca da Baleia no fim da tarde encharcados até os ossos. Dormimos por lá em uma das noites que mais senti frio em uma viagem "aventuresca". Só passei frio parecido muitos anos depois (em 2001) na Serra do Caparaó. Hoje em dia em tempos aquecidos eu me pergunto por onde caminha o frio. Até neblina anda rareando em Santo André.
Depois de um sono pisca pisca a manhã seguinte acordou com uma leve garoa e nem sinal do azul sedutor das altitudes tropicais. A pernada naquele dia seria mais puxada e íngreme até o Platô do Ajax para nosso acampamento. Foi neste dia que acabei conhecendo pessoalmente a "entidade" denominada perrengue. Ela me disse "bem vindo as pirambas meu jovem montanhista. Da Pedra do Queijo até o Ajax você vai me conhecer e quando estiver na Isabeloca serei seu "mui" amigo". "Eita" espírito sorrateiro que sussurra um mantra prestes a lhe tomar as forças ou incorporar em ti. Saí pra lá! Parece que esta "entidade" gosta de acompanhar jovens almas de montanha. Para afastar esta má companhia leve na mochila a perseverança, litros de água e boa comida. Munido com estas armas a chance de ela atacar seu puro corpo diminuem. O duro mesmo é quando a dita cuja não se dá por vencida e resolve chamar seus bem vindos amiguinhos chuva, vento, frio e raios para dar um tempero melhor no caldeirão espiritual de sua viagem. Quando isto acontece meu amigo, prepare uma reza "braba" ou aquela simpatia de avó para dar conta da "roda". Torço por você sair desta!
Fazem mais de três anos da última vez que estive na Serra dos Órgãos. Na ocasião acabei fazendo a travessia em "solo". Se hoje em dia eu faço a subida da portaria do parque até o Pico Açu em algumas horas, na época desta viagem levamos três dias. Uma lesma! Foi só no segundo dia que chegamos ao Ajax para nosso local de acampamento. Desta vez a noite foi mais quente devido a utilização da barraca. Acordamos de madrugada com a lua cheia ainda no horizonte para subirmos até o Açu neste começo de terceiro dia. Deixamos as barracas montadas e fizemos um ataque sem mochilas até o pico. Foi no fim do trecho de subida conhecido como Isabeloca que resolvi olhar para trás e ficar extasiado com a manhã despontando no horizonte. Um tapete de nuvens cobria os vales e um mar quase negro formavam as ondas e marolas de montanhas. Esta cena nunca saiu de minha mente. Uma pintura para ser emoldurada para sempre em meu quadro mental. No dia 15 de julho de 1998, vestindo calça de moletom, japona de basquete, calçando tênis de skate e com as mãos duras pelo frio pude ir muito além do que os olhos podem revelar, pude ir muito além do que as mãos podem tocar, pude chamar isto de montanhismo, mas a muito mais...
Foi nesta viagem que pude vivenciar a bravura da juventude diante da hesitação da idade. Pude ver a autenticação da vida sendo constituída diante de meus olhos. Pude ver os mais belos horizontes a me mostrar 360º de descobertas. Pude sentir o silêncio da satisfação por estar ali. Pude transformar o passado na gratidão do presente. Pude comprovar a pandemia patológica urbana em que vivemos. Pude constituir e ampliar meus valores. Pude admirar esta nossa colorida fubeca chamada Terra. Pude exercitar o aumentativo "ão" com emoção pelo ventão, subidão ou friozão. Pude desfrutar da vivacidade das cores como combustível dos olhos. Pude ir muito além do que estas palavras podem dizer.


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