
Guga, Guga... só me lembro das vozes da turma me procurando para me chamar de volta a van. Enquanto eles tomavam um café da manhã eu resolvi caminhar por Cardeal Mota - MG. Depois de passados alguns bons minutos, lá estávamos nós iniciando a travessia pelo Alto do Palácio na Serra do Cipó.
Quem é do mar não enjoa, não enjoa.
Chuva fininha é garoa, é garoa.
(Quem é do mar não enjoa - Martinho da Vila)
Na terra em que o mar não bate
Não bate o meu coração
(Beira mar - Gilberto Gil)

Esta nossa montanha naval aí em cima, corta as nuvens com seu casco rochoso, navegando num mar celestial, repleto de cardumes estelares que ainda se escondem nas profundezas do azul. Que belo casal se formou com a aparição do grande peixe lunar. Este colosso de rocha é o equivalente ao playcenter ou hopi hari para montanhistas. Nosso alegre passeio no parque de diversão. Tem montanha russa, esticão ao alvo, turbo drop, etc. O melhor ainda que é de graça! Este parque possui nome de uma extinta rede de lojas que foi recentemente vendida pelo hilário e matusalém apresentador do milhão. Foto registrada num final de tarde de agosto de 2007, depois de escalar uma montanha com nome de pessoa que não é chata, com nome de via energizante. Depois destas dicas, ganha um doce quem acertar. Boa semana a todos!

A história desta foto começa por um dos lugares que mais gosto e tinha interesse em visitar quando comecei no montanhismo. Muitas histórias pairavam sobre os vales e montanhas da Serra do Caraça. Demorei muito tempo para visitar a serra, mas quando isto aconteceu foi da maneira mais perrengueira possível, por um terreno que só os locais conheciam e não quiseram dar informações. Foi em 2007 que conheci da forma mais intimista possível as cristas e picos desta serra tão diminuta, mas imponente. Fizemos uma travessia de 4 dias começando pelas costas da serra em Catas Altas, passando pelo Pico do Horizonte ou Agulhinha, Pico do Sol, Pico da Carapuça e terminando no Santuário. Passamos por vales e rampões escorregadios, num sobe e desce freqüente de uns 200m. O mais arrepiante eram as inúmeras fendas a perder de vista de onde acabavam. Um vacilo e tchau!
A foto desta atualização foi feita na segunda visita em 2008, também por caminhos poucos conhecidos. Na ocasião o roteiro era diferente da primeira vez, começando pelos extremos dos Campos de Fora (foto), passando pelo Pico do Canjerana, Verruguinha, Inficionado e terminando no Santuário. Foi umas das mais cansativas travessias que já fiz e que nunca mais vou esquecer devido a perda de um objeto muito valioso para mim. Minha tão preciosa máquina fotográfica foi esquecida no ponto de ônibus em plena estrada que nos levaria de volta a BH. No desespero de ter avistado o ônibus que descia com tudo pela estrada sem acostamento, acabei pegando a mochila primeiro e nem notei a máquina deixada ao lado.
Foi se embora ela e o último rolo de slide que estava dentro. Sobrou saudade da precisão mecânica de uma obra da engenharia fotográfica, a certeza do foco manual de visor bipartido, a leveza de um corpo clássico, o grito de independência da eletrônica, o zoom que aproxima e distancia o coração, o suspiro do obturador aliviado por capturar a luz, o duro botão disparador afrontando o tempo, o zelo na composição para não desperdiçar fotos e para finalizar, o último rolo de slide guardado separadamente na mochila para concretizar sua vida. Foram as últimas fotos da minha sentimental Nikon FM10, que hoje vaga na mão de algum desconhecido que não lhe deve dar o devido valor.

Será o colo (*) de uma montanha a cama aconchegante para seu sono ou um cupim de boi rochoso como reserva alimentar dos olhos de um montanhista? Fico com o cupim e você? Qual título escolhe?
(*) Acidente geográfico definido como o ponto mais baixo entre dois picos pertencentes à mesma aresta.


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