

Os pensamentos de que nossos perrengues pelo Parque Nacional del Cocuy na Colômbia estavam chegando ao fim, começaram a serem mais frequentes quando decidimos refazer o planejamento dos dias restantes para as atrações do lado norte do parque. Não podíamos deixar passar em branco a subida até a base da neve (4.950m) do pico Ritacuba Blanco (5.390m) e a Laguna Grande de los Verdes. Depois de voltarmos da trilha pelas lagunas do lado sul, arrumamos nossas tralhas e lá pelas 16h já estávamos na Finca dos los Herrera depois de uma hora de trilha deste o abrigo esperando o possante Jeep Montero para nos transferir ao lado norte do parque. Desta vez não fui premiado com três andares de ovos para levar. Depois de 1h30min no sacolejo baiano da estrada chegamos às Cabañas Kanwara.
Depois da ação perrengueira para subida ao pico do Pulpito nós queríamos é curtir o último dia no lado sul do parque em uma trilha mais relax. Nossa intenção era ficar quatro dias neste lado e depois mais quatro dias no lado norte, mas acabamos desistindo em ambos os lados pelo tempo necessário em ir até as principais e maiores lagoas do parque. No lado sul temos a Laguna Grande de la Plaza e no lado norte temos a Laguna Grande de los Verdes, ambas se localizam nos "cotovelos" da serra (extremidades) e demandam três dias para ir e voltar na lagoa do sul para quem carrega todo a casa nas costas e não está em boa forma física. Como já estávamos no terceiro dia no lado sul e precisávamos de mais dois, declinamos da intenção e resolvemos fazer a trilha "relax" de mais ou menos 2h nas lagoas perto do abrigo. Zarpamos 11h e às 13h estávamos de volta para o almoço e translado de Jeep para o lado norte. Seguem as fotos e legendas....

Era madrugada do dia 21 de fevereiro em pleno Parque Nacional del Cocuy na Colômbia quando acordamos de mal humor pela noite remexida pela insônia devido a altitude. Não tinha sinais de dor de cabeça e o silêncio reinava no acampamento num frio abaixo de zero. Minha última medição marcou +2ºC as 22h. Acredito que acordei as 4h30min, mas só resolvemos sair da barraca as 5h num suplício do corpo e mente pedindo para dormir um pouco mais. Era hora e dia da ação! Nosso objetivo navegava num mar celestial negro lá pelos 4.850m de altitude. A base do Pico Pulpito del Diablo! Atingir o cume (4.949m) não era nossa intenção já que não estávamos preparados fisicamente e muito menos com todo o equipamento de escalada. A satisfação residia em atingir os pés dele e tocar o seu cobertor de neve.
O alívio por termos chegado ao nosso tão almejado destino já tomava conta de mim enquanto íamos subindo e chacoalhando pela estrada de acesso ao parque nacional Sierra Nevada del Cocuy. Da cidade até o começo da trilha na Fazenda dos Herreras já dentro do parque seriam mais uma hora levados pela potente e brava Mitsubishi Montero vencendo a altitude dos 2.700m até os 4.000m. O possante que nos levou e resgatou se tratava da primeira geração deste célebre e vitorioso modelo fabricado no ano de 85 onde a robusta mecânica se sobressai da atual fragilidade eletrônica.
Enquanto a ida no ônibus para Cocuy foi relativamente confortável a subida para o parque tinha se transformado para mim no "acaba logo antes que está porra estoure". Tinha sido premiado por camponeses para levar até a fazenda três andares de ovos no colo naquele sacolejo baiano de estrada. Dito e feito... Estouraram alguns ovos para minha felicidade e perfume, mas nada se comparava as silhuetas que a cada curva iam revelando montanhas negras, amarelas e por fim o grande colosso dos picos nevados do Púlpito del Diablo e Pan de Azúcar navegando num mar celestial de azul. Pronto... o abre alas estava em nossa frente exibindo seu perfeito cobertor de algodão nevado. Depois de mais alguns minutos chegamos no que seria nossa morada por três dias na parte sul do parque. Da última fazenda onde o Jeep nos deixou seriam mais uma hora e meia até o abrigo na boca das trilhas.
Foto: Gustavo Melhado Petean - El Cocuy vista do alto da estrada para a serra - Ampliar
Era manhã do dia 20 de fevereiro quando desembarcamos na formosa e singela El Cocuy. O nome da cidade se originou pelos conquistadores que ali encontraram uma aldeia indígena com o cacique possuindo este nome. Conforme o dia ia clareando pude ver a "roubada" que o ônibus se metia em cada curva da diminuta estrada até a cidade. Eram barrancos, precipícios e deslizamentos que a cada freada ou aceleração aumentava o desejo de acabar logo com este tipo de via crúcis. Faziam 12hs que estávamos enfurnados no ônibus, sendo metade deles rolando todo o tipo de salsa colombiana em alto e bom som. Pedir para abaixar o volume pode se transformar em ofensa.
El Cocuy é uma cidade histórica possuindo uma arquitetura peculiar pela predominância do verde claro emoldurando janelas e batentes de portas. Graças a esta característica e suas belezas naturais a cidade foi declarada oficialmente como a mais bonita do estado de Boyacá. Ficamos na cidade um pouco mais de uma hora e meia, o suficiente para conhecer a maquete da serra nevada, a igreja matriz da praça principal, pagar a entrada do parque e tomar um bom café da manhã. Nossa intenção era ficar hospedado na cidade dois dias fazendo passeios curtos até a serra para aclimatação, mas as boas opções de hospedagem dentro do parque e os custos de ida e volta nos fizeram desistir de ficar na cidade. Aliviados por termos chegado ao nosso tão cobiçado destino não víamos a hora de adentrar as moradas das montanhas nevadas e respirar o inebriante ar rarefeito.
Foto: Gustavo Melhado Petean - Cerro Monserrate, Santuario del Señor Caído - Ampliar
Estive perambulando pela Colômbia por 12 dias, mais precisamente pela Sierra Nevada del Cocuy e seu respectivo parque nacional. Esta região montanhosa da cordilheira oriental andina abriga a maior massa de gelo da Colômbia. Visitas de brasilerios por lá são raras pelo que vi no livro de entrada do parque. Talvez à distância ou pura falta de conhecimento seja a causa desta escassez. As cidades que servem de porta de entrada para o parque (Cocuy e Guican) ficam mais ou menos 500 km de Bogotá numa viagem de 11hs com emoção garantida beirando precipícios pelas estradas de cascalho. Nada muito diferente dos bem visitados Peru ou Bolívia. Visitei as duas cidades e Cocuy é um charme pela sua limpeza, estrutura e arquitetura.
Para chegar até lá tivemos a ingrata surpresa de coincidir uma greve nacional dos transportadores que bloquearam as saídas e entradas para as estradas. Chegamos empolgados para ir direto ao nosso destino, mas notamos uma rodoviária muito calma. O circo estava armado distante dali para nosso desespero. As palavras da atendente no guichê da empresa de ônibus dizendo "No hay servicio, el bloqueo de camiones", explodiu como uma avalanche para nos calar a alma. Depois de uma pausa a sarcástica atendente ainda emendou "sin previsión".
O resultado deste infortúnio foi ficar três dias em Bogotá bancando os turistas e tentando acreditar nas notícias da TV de que se os caminhões não fossem retirados das estradas a polícia iria agir. Não deu outra... Passados dois dias a paulada rolou solta a noite no segundo dia. Já estávamos pensando em mudar completamente o roteiro e pegar algum avião para outro lugar. No terceiro dia conseguimos zarpar à noite para Cocuy, mas nosso objetivo principal da travessia em volta da serra (5-7 dias) já estava perdido.
A foto que encabeça esta atualização retrata um pouco do sofrimento nestes três dias ansiosos para chegar em nosso destino e ter que desistir da travessia. Ela foi capturada em visita no segundo dia pelo Cerro Monserrate. Uma montanha com 3.152m de altitude a alguns minutos do centro de Bogotá. Tentamos pegar a trilha, mas estava fechada. Na base da montanha existe o teleférico e um sistema funicular (em manutenção) que sobem até o topo onde está o Santuario del Señor Caído, lojas de artesanato, dois belos restaurantes e o maquinário do sistema funicular em uma "casa castelo" saída dos clássicos do cinema onde a princesa está presa na torre. Bem vindos(as) a Colômbia!


O conteúdo deste site é disponibilizado com a licença creative commons
Leia as condições de uso - Para uso comercial entre em contato