

Foto: Remando de volta ao continente com a Ilha Comprida ao fundo.
No segundo dia da viagem pela Ilha do Cardoso tiramos o dia para curtir a praia e seus arredores. Todos nós acordamos muito tarde fora dos padrões de horário se fosse uma travessia em montanha. No meio da manhã resolvemos montar um guarda sol na praia ancorado numa árvore morta um pouco mais afastado do camping. Nossa amiga Cláudia resolveu ficar por lá apreciando os botos/golfinhos enquanto o resto da turma resolveu caminhar alguns kilometros até o outro lado da praia voltado ao mar aberto em busca do distante rio que deságua no mar. Nenhum sinal dele no horizonte. Eu e mais alguns resolvemos entrar no liquidificador do mar tentando se equilibrar naquela confusão de ondas e correnteza. Pouco além do horário do almoço estávamos de volta ao guarda sol novamente escoltados pelos botos/golfinhos bem perto da areia.
Depois de algumas horas aquele marasmo físico foi quebrado pela inquietude do Pascoal e Danilo que resolveram lançar suas forças numa remada de exploração acompanhando o litoral da ilha no sentido sul, numa tentativa de subir o rio Perequê pela foz. Pegaram a canoa, mal disseram tchau e trataram de zarpar rapidinho com a maré cheia. Eu e o resto da turma resolvemos encarar uma porção de peixe para depois pensar em pegar as canoas. No meio daquele "caviar" de pescada olhando o folder do parque estadual da ilha a idéia de subir o rio Perequê começou a falar alto. Depois de uma breve digestão resolvemos ocupar nossos músculos e arrumar algumas tralhas para nossa remada. Eu, Luciano e Mônica zarpamos de forma hilária da praia com uma canoa sofrendo terremoto no mesmo sentido sul para tentar encontrar a foz do rio e cruzar com o Pascoal e Danilo voltando. Acabamos não percebendo a foz do rio logo quando acaba a praia, achando que a mesma estava bem mais a frente. Depois de remarmos 1,5km e contornar uma ponta de costão com o "pier" do parque marcando presença, percebemos que a foz do rio já tinha passado e com nossos amigos visíveis no horizonte. Paramos de remar numa enseada muito calma como um espelho enquanto esperávamos a aproximação dos amigos percebemos botos/golfinhos há alguns metros de nós. Na volta todos nós atracamos no "pier" do parque para conhecer as instalações abandonadas e entrar na trilha que levaria ao Poço das Antas. Com à hora já avançada de fim de tarde ao sair da trilha acabamos por cair na mesma estradinha "sem fim" que tínhamos passado logo a frente do “píer”. Abandonamos nosso ataque ligeiro ao Poço das Antas e tratamos de zarpar com as canoas aproveitando a maré vazante e a pouca luz que nos restavam. Chegamos à praia acelerados com a quinta marcha engatada pela maré e avistando a verdadeira foz do rio que tínhamos passado sem perceber.
A noite chegou bem rápido com o resto da turma preparando suas peripécias culinárias na praia. Resolvi tomar um banho e pegar minha "head lamp" no camping para depois engatar uma janta no restaurante do núcleo. Abri a barraca peguei o "head" e os apetrechos de banho e foi ao chuveiro encarar uma água trincando de boa. Revigorado voltei à barraca para deixar as coisas e voltar à praia. Foi aí que aconteceu a última surpresa da viagem. Ao abrir a barraca voltei a escutar aquele barulhinho raspando a parede. Iluminei as laterais e nem sinal de algo. Quando apontei ao fundo da barraca lá estava dentro meu "amiguinho" caranguejo com um sorriso de ponta a ponta e seus olhos esbugalhados dizendo um sotaque argentino "hola, qué tal?". Imagina este afortunado fazendo companhia na madrugada e o susto que levaria com ele na minha cara tentando pinçar meu nariz ou furar meus olhos. Iria desmoronar tudo com o pulo que daria. Dia seguinte nos jornais apareceria estampado "Jovem morre soterrado pela própria barraca numa briga durante festa interna". Como ele foi parar lá? Acredito que ao arrumar as coisas para ir ao banho deixei a barraca aberta e fui até o varal pegar a toalha, nesta hora ele se aproveitou e deve ter entrado para sua vingança. Para tirar o "amiguinho" de lá não foi fácil. Cutucava com um galho e ele parecia um boi na arena de rodeio indo de um lado ao outro. Na hora em que ficou parado na frente da porta não deu outra e tratei de dar uma chinelada ao alto num vôo estratosférico que deve ter aterrissado em uma das panelas da turma na praia. Final da noite do segundo dia sem mais nenhum acontecimento especial.
Manhã do terceiro e último dia da viagem fui acordado com o calor dentro da barraca suando como um frango naqueles fornos giratórios apelidados de televisão de cachorro. Depois de um café da manhã com direito a um ótimo açaí liofilizado, era hora de preparar o espírito para a “saideira” e zarpar de volta ao continente até Cananéia. Puxamos as canoas da mata de restinga para a praia a fim de começar acomodando as tralhas. Consegui emprestado um saco estanque para garantir a segurança da câmera em caso de virar a canoa e tentar fotografar nossa remada pelo canal. O medo era tanto de molhar que não conseguia ficar tranquilo. Consegui tirar apenas uma foto que encabeça este post. Nossa intenção de caminho na volta era seguir margeando a praia novamente no sentido sul e depois de passar o costão mudar a direção apontando a proa para a margem esquerda do continente onde está Cananéia. Acontece que depois de passarmos a arrebentação da praia um pescador em um barco nos perguntou onde iríamos e o mesmo nos recomendou cruzar reto apontando a proa direto para a Ilha Comprida na margem direita. Se continuássemos com a intenção inicial, iríamos ser arrastados ao sul da ilha pela maré cheia. Mudamos os planos e atravessamos reto o canal quase na boca para o mar aberto (foto de abertura). Depois de uma remada sem descanso cruzamos uma boiá de sinalização onde avistamos uma pequena praia para relaxar e nadar um pouco (foto com guarda sol). Matamos o tempo liquidando meu último salgadinho chips. De volta nas canoas resolvemos curtir mais um pouco os ares da viagem e não seguimos margeando a costa direita da Ilha Comprida no sentido direto a Cananéia. Decidimos cruzar novamente o canal para atingir a margem oposta esquerda no continente aportando em outra praia que avistamos. Confesso que ao entrar nesta praia nunca presenciei uma água marinha tão quente quanto aquela (foto com tronco morto). Parecia um "ofurô" que mau consegui ficar 5 minutos. O fundo também era argiloso afundando o pé acima da canela. Depois deste banho termal e algumas fotos seguimos nossa remada “tristes” pelo fim da viagem margeando a costa no pouco que nos restava para chegar ao Instituto Oceanográfico da USP. Fim da linha, ou melhor, fim da água e começo da firmeza aos pés numa região devidamente bem preservada e que merece sempre estar assim como um dos mais importantes viveiros marinhos do litoral paulista e berço da escassa mata atlântica.


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