olho-antenas.png

Hora da ação

Era madrugada do dia 21 de fevereiro em pleno Parque Nacional del Cocuy na Colômbia quando acordamos de mal humor pela noite remexida pela insônia devido a altitude. Não tinha sinais de dor de cabeça e o silêncio reinava no acampamento num frio abaixo de zero. Minha última medição marcou +2ºC as 22h. Acredito que acordei as 4h30min, mas só resolvemos sair da barraca as 5h num suplício do corpo e mente pedindo para dormir um pouco mais. Era hora e dia da ação! Nosso objetivo navegava num mar celestial negro lá pelos 4.850m de altitude. A base do Pico Pulpito del Diablo! Atingir o cume (4.949m) não era nossa intenção já que não estávamos preparados fisicamente e muito menos com todo o equipamento de escalada. A satisfação residia em atingir os pés dele e tocar o seu cobertor de neve.

Fomos até o abrigo pegar as mochilas e arrumar as tralhas. Na pequena distância que separa o camping do abrigo já percebi que o dia seria cansativo. Meu corpo deu um leve sinal de respiração mais ofegante. Tínhamos dormido uma noite acima dos 4.000m. Tomei um bom café da manhã com açaí, banana e granola liofilizados (eu recomendo!) e não via a hora de começar a ação no perrengue da trilha. Acredito que zarpamos lá pelas 7h na meia luz dos primeiros raios. Passamos pela formosa Laguna Pintada que nem papa léguas e dali em frente seriam subidas e mais subidas até a base do Pulpito.

A trilha percorre o vale formado pelo degelo do glaciar e dominado por paredões imensos. No início da trilha a subida é suave tendo em seu lado direito um imenso charco avermelhado e as paredes e cristas dos dois grandes picos Campanillla Negro e Blanco marcando presença constante. A duração total da trilha leva-se de 8h a 10h (ida e volta). Do abrigo até o Hotelito, uma área plana e verde para se acampar leva-se 3h. Do Hotelito em diante começa o verdadeiro perrengue numa piramba de mais de 200m para respirar fundo e só pensar, vai! A subida deste trecho é quase uma escalaminhada no final por ter que trepar grandes blocos de pedras para atingir o colo da crista que te levará para o platô de acesso ao pico. Do colo percorre-se um longo trecho de subida um pouco mais suave pelo chapadão de pedra, até atingir a neve na base do grande paredão do Pulpito.

No trecho do chapadão o ar rarefeito se fez sentir em diversas mini paradas para retomar a pulsação e respiração normal. Conseguia dar uns esticões de mais de 50m para depois aliviar com uma rápida parada em pé. Este trecho foi o mais cansativo pela extensão e desgaste sofridos na piramba depois do Hotelito. Fora isto me sentia super bem, sem sinal de dor de cabeça, tontura ou afins. A temperatura também estava ótima. O vento era forte e constante, mas uma camiseta de manga comprida, duas blusas de fleece, calça e jaqueta impermeáveis davam conta da “friaca” congelante.

No geral a trilha pode ser organizada em três blocos nomeados por mim como Vale, Piramba e Chapadão. No primeiro bloco (Vale) a trilha começa na Laguna Pintada e vai até o Hotelito (3h). No segundo bloco (Piramba) temos o trecho mais forte de subida e desnível, indo do Hotelito até o colo da crista (1h). O terceiro e último bloco (Chapadão) vai do colo da crista até os pés do Pulpito, percorrendo todos os platôs de pura rocha em 2h30min. Todos os trechos são de subida constante, totalizando um desnível de 800m do abrigo (4.000m) até a base nevada do Pulpito 4.850m.

Chegamos aos pés do Pulpito lá pelas 13h30min com a certeza de que nossa percepção de distância e tempo estava abalada pelo inebriante ar rarefeito. Olhando do colo até os pés do pico tudo parecia perto e intuitivo. Achava que rapidinho estaríamos lá. Foi curioso constatar como fomos enganados. O que mais me impressionou ao chegar no Pulpito foi ver aquela linda parede vertical de 100m com seus tons de laranja, amarelo e vermelho na rocha se fundindo com o branco da neve e azul do céu. Diante deste cenário percebi a predominância de três cores ou três elementos principais (rocha, neve e céu) para compor quem sabe um pequeno ensaio futuro denominado "Tríade" que durante toda a viagem tentei embasar o registro das fotos.

Ficamos aos pés do Pulpito uns 30min. O suficiente para curtir a neve e a ascensão de um casal americano em direção ao cume do nevado Pan de Azúcar. Tentei avançar pela neve subindo em direção ao colo formado entre o Pulpito e outro pico, mas percebi que a neve estava ficando mais dura e começava a escorregar. Subi uns quinze metros para me deitar na neve e ficar como uma criança com seu novo brinquedo branco. O mais engraçado foi ser convidado por um grupo de colombianos que estava um pouco mais abaixo para fazer bolinhas de neve e colocar leite condensado por cima delas. Um autêntico sorvete natural com cobertura industrial.

Zarpamos do pico às 14h e chegamos ao abrigo no fim da tarde lá pelas 17h30min. Fizemos uma parada no Hotelito para comer algo e descansar da piramba na descida. Acabei passando mal contrariando os sinais do meu corpo de que não estava aceitando bem qualquer comida. Estava bem hidratado, mas agi como uma besta insistindo em enfiar goela abaixo minhas guloseimas. Quando acabei de comer alguns amendoins não deu outra, botei os "bofes" para fora. Apesar deste infortúnio não me senti fraco e deu para seguir numa boa o resto da trilha. Meu consolo residia em dormir dentro do abrigo no aconchego de uma boa cama. No final deu tempo para desmontar a barraca e ficarmos enclausurados como freiras no convento de nosso quarto representado com bom humor pelo nome de "Rochara Venado". Para finalizar... Se nesta nossa ascensão ao Pulpito fosse como dirigir um filme, o diretor diria neste momento, coooooooooorta! Aguardem os próximos capítulos que este diretor que vos escreve dirá luz, câmera e ação. Obrigado pela leitura e fiquem com algumas fotos!

INFORMATIVO

Receba com exclusividade as atualizações.

O conteúdo deste site é disponibilizado com a licença creative commons

Leia as condições de uso - Para uso comercial entre em contato

Creative Commons blog by: Plyn Interativa